As armas do futuro

WALTER BENJAMIN
tradução NÉLIO SCHNEIDER

RESUMO Em texto de 1925, inédito em português, Walter Benjamin fala de armas químicas, como o gás lacrimogêneo, e prevê sua vulgarização. Editado pelo jornal “Vossische Zeitung” sem sua assinatura, o artigo foi catalogado pelo filósofo entre suas obras publicadas e sairá no Brasil no livro “O Capitalismo como Religião”, da Boitempo.

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As designações anteriores1 serão tão populares na próxima guerra quanto “trincheira”, “submarino”, “Berta Gorda” 2 e “tanque” foram na passada. Para os vocábulos químicos difíceis de pronunciar serão adotadas em poucos dias cômodas abreviações. E essas expressões, promovidas em poucas horas a uma atualidade jamais imaginada, superarão em popularidade o vocabulário de todos os relatórios dos fronts escritos de 1914 a 1918.

Elas dizem respeito a cada pessoa diretamente. A guerra vindoura terá um front espectral. Um front que será deslocado fantasmagoricamente ora para esta, ora para aquela metrópole, para suas ruas, diante da porta de cada uma de suas casas. Ademais, essa guerra, a guerra do gás que vem dos ares, representará um risco literalmente “de tirar o fôlego”, em que esse termo assumirá um sentido até agora desconhecido. Porque sua peculiaridade estratégica mais incisiva reside nisto: ser a forma mais pura e radical de guerra ofensiva. Não há defesa eficiente contra os ataques com gás pelo ar. Até mesmo as medidas privadas de proteção, as máscaras antigás, falham na maioria dos casos.

Por conseguinte, o ritmo do conflito bélico vindouro será ditado pela tentativa não só de defender-se mas também de suplantar os terrores provocados pelo inimigo por terrores dez vezes maiores. Em consequência, é irrelevante quando teóricos mais bem intencionados acenam com a perspectiva “humana” do gás lacrimogêneo, e até procuram criar simpatia pela guerra com o gás, comparando-a com a guerra aérea com materiais explosivos.

Outros já têm a visão mais aguçada, quando colocam de antemão e em primeiro plano, como motivo para o ataque com gás (cuja importância crescente já foi ensinada pela guerra passada), o seguinte: a finalidade última das ações da frota aérea deve ser destruir a vontade de resistência inimiga. Alguns poucos “raids” [ataques] devem infundir na população dos centros inimigos um terror inconsciente tal que malogre qualquer apelo à organização da resistência. O terror deve ser algo similar à psicose.

Uma imagem que nada tem das utopias de Wells e Júlio Verne: nas ruas de Berlim, espalha-se sob o belo e radiante céu primaveril um cheiro parecido com o das violetas. Isso dura alguns minutos. Logo em seguida, o ar se tornará sufocante. Quem não lograr escapar da sua esfera de ação nos minutos seguintes não conseguirá mais reconhecer nada, perderá momentaneamente a visão.

E, se ainda não for bem-sucedido na fuga ou se nenhum transporte o recolher, morrerá sufocado. Tudo isso poderá suceder um dia sem que se veja no céu qualquer aeronave nem se perceba o ronco de uma hélice. O céu poderá estar claro e o sol brilhando, mas invisível e inaudível, a uma altitude de 5.000 metros, paira um esquadrão aéreo respingando cloroacetofenona, gás lacrimogêneo, o “mais humano” dos novos recursos que, como se sabe, já teve certa importância nos ataques com gás da última guerra.

Não há meio confiável que permita perceber a presença dos esquadrões entre cinco e seis quilômetros acima da superfície da Terra. Ao menos publicamente não se conhece nenhum. É que a “ouverture” abafada que há anos está sendo executada nos laboratórios químicos e técnicos só chega aos ouvidos do público em forma de dissonâncias isoladas.

Esporadicamente fica-se sabendo de coisas, como da invenção de um receptor acústico muito sensível, capaz de registrar o ronco de hélices a grandes distâncias. E alguns meses depois ouve-se falar da invenção de uma aeronave silenciosa.

Alguns fatos que o correspondente de guerra norte-americano William G. Shepherd divulga no “Liberty” sobre a “aplicabilidade” do parque aeronáutico francês na guerra são ilustrativos.
A França possui hoje pelo menos 2.500 aeronaves no serviço ativo à paz; há mais na reserva. A tonelagem total das forças aéreas francesas, dependendo da altitude de voo, comporta entre 600 e 3.000 toneladas. Shepherd põe Londres como alvo. O centro de Londres, sede de todos os institutos vitais do Império Britânico, cobre quatro milhas quadradas inglesas. Para se tornar inabitável por vários meses, essa área exige a aplicação de 120 toneladas de sulfeto de dicloroetila, o gás mostarda.

Considerando que sobre esse território podem voar ao mesmo tempo -dentro da mesma camada atmosférica, naturalmente- no máximo 250 aviadores, cada um deles carregando pelo menos 250 quilos, e que esse esquadrão despeje uma tonelada por minuto, o coração do império mundial britânico -sempre de acordo com a abordagem de Shepherd- terá parado de bater após dois minutos.

INÉRCIA

O aspecto problemático dessas exposições é que a fantasia humana se recusa a acompanhá-las, e justamente a monstruosidade do destino ameaçador se torna um pretexto para a inércia mental. Sua tentativa de convencimento sempre resulta em que uma guerra dessas ou é de todo “impossível” ou seria de extrema brevidade. Na verdade, essa guerra só terminaria num breve instante se a respectiva base dos esquadrões aeronáuticos fosse conhecida dos combatentes.

Não é esse o caso. Pois essa base de modo algum precisa situar-se em terra. Em algum lugar do oceano, as aeronaves podem alçar voo de navios porta-aviões, que mudam constantemente sua localização sobre as águas.

Com o que se parecem os gases venenosos, cuja aplicação pressupõe a suspensão de todos os movimentos humanos? Conhecemos 17 até agora, dos quais o gás mostarda e a lewisita são os mais importantes.

As máscaras antigases não oferecem proteção contra eles. O gás mostarda corrói a carne e, quando não acarreta diretamente a morte, produz queimaduras cuja cura demanda três meses. Esse gás permanece virulento durante meses em objetos que entraram em contato com ele. Nas regiões que alguma vez foram alvo de um ataque com gás mostarda, meses depois, cada pisada no solo, cada maçaneta de porta e cada faca de pão ainda podem provocar a morte.

O gás mostarda, a exemplo de muitos outros gases venenosos, torna todos os víveres incomestíveis e envenena a água. Os estrategistas imaginam assim a utilização desse recurso: certos distritos taticamente importantes devem ser cercados com barreiras de gás mostarda ou então de difenilamina cloroarsina.

Dentro dessas barreiras tudo perece e nada consegue passar por elas. Desse modo, casas, cidades, campos podem ser preparados de tal forma que, durante meses, nenhuma vida animal ou vegetal é capaz de medrar neles. Nem é preciso dizer que, no caso da guerra com gás, cai por terra a diferenciação entre população civil e população combatente e, desse modo, um dos fundamentos mais sólidos do direito dos povos.

A lewisita é um veneno à base de arsênico que penetra imediatamente no sangue, matando de forma irremediável e súbita tudo o que atinge. Durante meses todas as áreas atingidas por ataques com esse gás ficam empestadas de cadáveres. Naturalmente não existe proteção contra ele em tais regiões: porões subterrâneos, que protegem quando muito de bombas explosivas, trazem a morte certa no caso de ataques com gás, porque o gás, pesado, tende para os lugares mais baixos.

Ora, como se sabe, o Comitê Central da Liga das Nações instituiu uma Comissão para o Estudo da Guerra Química e Bacteriológica. Dessa comissão participaram autoridades internacionais. Seu relatório não foi tratado com a devida consideração. A grande política ainda prioriza problemas de armamentismo e desarmamento cuja relevância se desfaz no ar frente aos fatos referentes aos preparativos para a guerra química.

A persistência com que, na execução do Tratado de Versalhes pela Alemanha, foram questionados ridículos requisitos militares não tem só um aspecto desagradável mas sobretudo algo de sumamente perigoso. Porque ela desvia a atenção pública do único problema atual do militarismo internacional.

WALTER BENJAMIN (1892-1940), filósofo e crítico literário alemão, autor de “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”.

NÉLIO SCHNEIDER, 52, tradutor do alemão especialista na área de ciências humanas, assina a versão em português de novo livro de ensaios de Walter Benjamin, a sair pela Boitempo, “O Capitalismo como Religião”.

Notas

1. Cloroacetofenona, difenilamina cloroarsina e sulfeto de dicloroetila são os nomes dos compostos químicos usados como armas; eles integravam o subtítulo original do artigo de Benjamin, daí a menção às “designações anteriores”.
2. “Dicke Berta”, em alemão, era o apelido de um morteiro de 42 centímetros, desenvolvido pela firma alemã Krupp para a Primeira Guerra Mundial. (N.T.)

 

irobot. do you?

iRobot é uma empresa que fabrica pequenos robôs de controle remoto equipados com câmeras para diversos usos, principalmente militar. iRobot também vende e ficou conhecida por sua máquina de varrer o chão, a Roomba. Agora, iRobot deu mais um passo sucesso ao conseguir contratos de mais 7 milhões de dólores com o governo do Brasil. Que está interessado em tornar mais high tech o sistema de controle da próxima Copa Mundial.

Governo de Dilma comprou uma série desses robozinhos, usados também pelo governo americano na guerra do Afeganistão. Robozinhos que, se jogados em qualquer lugar, conseguem andar e filmar. Uma beleza!

Medo dessa propaganda.

culto da caixa preta

Essa semana foi lançado o último console da Microsoft, Xbox One, que promete não apenas os já consolidados comandos de movimento, mas também comandos de voz. Além de total integração com conteúdo televisivo e programas de conversação, como o Skype.

Enquanto ainda não convivemos com carros voadores, já há uma parcela do futurismo clássico que podemos usufruir no dia a dia. Pelo que parece, as telas, simultaneidade, e velocidade de informação vão continuar dando o tom desse novo período.

Simultaneidade

No Skype, o usuário poderá abrir salas de multiconversação, atender uma chamada de vídeo enquanto assiste a um filme ou joga um game.

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Velocidade

“O Xbox One terá processador de 8 núcleos AMD Jaguar, 500 gigabytes (GB) de espaço de armazenamento em disco rígido, 8 GB de memória RAM, drive de Blu-ray, Wi-Fi embutido, HDMI e três sistemas operacionais embutidos.” Lançamentos de novos consoles significa avanço na capacidade de processamento de dados. Significa upgrade forçado aos computadores domésticos, principalmente se quiserem rodar jogos como Call of Duty e Crisis 3.

Games XboxOs games serão lançados para o Xbox One nos próximos 12 meses. Terão Inteligência Artificial quase humana, e atletas com mais velocidade e agilidade. “Serão mundos vivos”, disse Wilson. (Oi??)

Magos do sonho e da tecnologia

Apresentados como enormes cabeças projetadas na tela, dois dos maiores ícones do casamento entretenimento/tecnologia, Bill Gates e Steven Spielberg, agregaram valor mitológico estilo Grande Irmão Bonzinho ao espetáculo do lançamento do console.

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Grana

“O Xbox One vai competir com o Wii U, da Nintendo, que já está à venda, e com o PlayStation 4, que deve começar a ser vendido neste ano, por uma fatia do mercado de videogames que hoje movimenta US$ 65 bilhões por ano.

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Linda foto! Lindo aparelho!

dados coloridos do governo K

Vendo uma tremenda infografia da Agência oficial argentina.

Uma sequência de dados coloridos, em ordem cronológica sobre as principais conquistas em políticas públicas realizadas na última década. Todas grandes sucessos!!!

A parte da infografia fofa e lúdica, há textos publicados em momentos diferentes sobre o governo Kichner.

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Um ótimo exemplo do investimento governista na disputa pelos ícones e símbolos do imaginário nacionalista argentino.

Lembrando que todo essa vitrine vem sendo construída em meio à diversas denúncias de acobertamentos e manipulação de dados oficiais por parte do governo.

lendo a matéria “Pai mata bebe de duas semanas por interromper maratona de videogame”

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Lembro que há cerca de 10 anos atrás, o caso do cara que se matou na frente do computador depois da traição de um amigo do game  Everquest chocou geral. Indignação global. Naquela época a polêmica girou, mais em torno da propensão psicológica de certas pessoas à hábitos viciosos e anti-sociais, do que das características viciantes dos jogos em si.

Casos como esse representavam desvios de comportamento, casos de sujeitos esquisitos, com dificuldade de sociabilização que deveriam recorrer à cuidados médicos. Aparentemente até hoje a coisa não mudou muito: games podem ser viciantes, mas só à pessoas com histórico de patologia psicológica.

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O número crescente de casos envolvendo vício, games e morte é crescente e sintomático. Ilustram a consolidação de práticas compulsivas e destrutivas. Mas mesmo assim, são poucos os estudos destinados a esse tema. (assim como uma série de outros vícios importantes para a economia global também não tem seus efeitos muito investigados)

A matéria “Pai mata bebe de duas semanas por interromper maratona de videogame”, além de trazer informações suficientes para perceber a gravidade do fenômeno, traz ao lado uma lista de outros casos linkando mortes e cultura dos games . Todas do mesmo ano.

It’s just a game…

Quando buscamos no Google lista de jogos mais viciantes, as referências que aparecem geralmente são positivas. Isso faz pensar se é óbvio para todo mundo o fato dos games serem, em geral, planejados, construídos, lançados e reformulados para criar, incitar e manter o interesse constante de seus jogadores.  Ou seja, para viciar.

Desde os primeiros e super viciantes games, como Tetris e Enduro essa arte de viciar aprimorou-se bastante. Os chamados never ending games, (como World of Warcraft) jogos onlines de personagens que progridem em aventuras infinitas,  simulam um universo a parte, cheio de desafios a serem conquistados, integrados à um rede social própria, também não possuem  objetivo final. A principal meta dos games é aprimorar continuamente os status de seus jogadores. Seguem um sistema de bônus, rankings, e campeonatos que servem como estímulos crescentes aos jogadores, desde do mais iniciantes ao mais veteranos.

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Jogos são divertidos, é claro. Mas sua atração não está baseada somente na diversão que proporcionam. Os jogos eletrônicos, principalmente os avançados, com plataformas online, envolvem o jogador numa cadeia de estímulos incessantes. São máquinas de estimular a atenção e a manutenção de ativos. Deixam o sujeito alerta, excitado todo o tempo. Esse tipo de jogabilidade incita a produção de uma meia dúzia de hormônios e substâncias no corpo que permitem a suspensão dos alertas das necessidades básicas (beber, comer, dormir), para se manter ativo à outra rede de estímulos. O resultado disso é pessoal perdendo noção da realidade.

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Indústria dos prazeres

Uma das coisas surpreendentes da indústria de entretenimento, não só a dos games, é o fato de não declararem que operam a partir da produção de desejos e necessidades subjetivas. Não admitem que suas estratégias baseiam-se em formas de estímulos  ao inconsciente, que despertam prazeres e desejos, responsáveis pela determinação de grande parte de nossas ações. Chega até ser constrangedor ver o RP de empresas e governos apelarem para discursos de “livre arbítrio”, e “bom senso” dos cidadãos, quando na verdade, sabemos que esses produtos não são fabricados nem vendidos com base na racionalidade. São produzidos e amplamente consumidos para seduzir e viciar.

São muitos os processos abertos contra empresas de videogames, como a Blizzard, mas poucos os que tenham vencido. Alegam sempre que “It’s just a game.” Claro…quem discordaria desse fato? Apesar da maioria dos estudos acadêmicos apontarem para as características patológicas dos jogadores, a afirmação da Dr. Maressa Orzack de que 40% dos jogadores de Wow eram viciados, repercutiu bastante.

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Abaixo um especial interessante sobre a cultura e indústria game na Coréia do Sul:

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Há muito sobre o que pensar sobre o tema. Continuamos acompanhando.